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As Artes abrem portas

Os alunos e os professores das artes do Agrupamento de Escolas Gabriel Pereira | Évora expõem um grande conjunto de trabalhos plásticos, para a realização dos quais foi mote o universo artístico de Vincent Van Gogh (1853-1890). Os trabalhos expostos não são apenas cópias, nem tão-somente recriações. São a expressão do envolvimento e do empenho de todos os intervenientes, num permanente crescimento humano que implica ser sensível à beleza – na natureza, logo, também, no ser humano; na arte e nos seus objetos; na efemeridade das coisas consideradas grandes, mas também na efemeridade das pequenas coisas. 

Os alunos e os professores das artes convidam toda a comunidade escolar a visitar os seus espaços de trabalho no Pavilhão A3 da Escola Secundária Gabriel Pereira, entre os próximos dias 15 e 31 de maio.

Vincent Van Gogh é muito mais do que um nome, como cada um de nós, muito mais do que um pintor famoso, de cuja passagem pela vida se fez nascer um mito. Vincent Van Gogh é um ser humano, como qualquer outro ser humano, com desesperos, incertezas, alegrias, medos, dúvidas, expetativas, anseios, na fugacidade da existência. Trouxe, até nós, todos os pensamentos, todos os sentimentos, comuns à humanidade como um todo. Precisamos de mitos, para encontrar segurança num qualquer sentido orientador, para nos exorcizarmos a nós mesmos. Somos máscaras, temerosas, no teatro do dia a dia, nem sempre capazes de viver de forma apaixonada, intensamente. Procuramos a felicidade, mas não vamos além da satisfação pessoal, em si mesma passageira. Vincent Van Gogh terá vivido com a intensidade de quem queria sobreviver, tentando, mesmo nas adversidades, fazer da pintura uma forma de vida, com a intensidade de quem procurava o entendimento e o apoio dos outros, de quem queria entender-se a si mesmo. Muitas vezes marcada por uma turbulência incontrolável, Vincent Van Gogh projetou toda essa intensidade em cada um dos seus desenhos, em cada uma das suas pinturas, nas cartas que escreveu ao seu irmão Theo, em muitas das quais descrevia as obras que tinha em mãos. Da arte, Vincent Van Gogh fez uma catarse. A catarse liberta, ainda que temporariamente, e pode favorecer o conhecimento de si mesmo. Na catarse uns dos outros, tentamos encontrar a nossa própria libertação, dela fazendo uma procura autocentrada, uma mera afirmação de si mesmo. A libertação autocentrada jamais conduzirá à liberdade. Vincent Van Gogh encanta-nos, ao mostrar-nos o universo de emoções, do qual todos nós somos parte integrante. 

As artes abrem portas ao encantamento. 

Um céu que se eleva, para além de si mesmo, que nos envolve no movimento incessante de um macrocosmos, no qual fica completamente esbatida a ideia de nós mesmos como insignificantes microcosmos. Ao tom escurecido de um cipreste, contrapõem-se os amarelos e os azuis espiralados de uma noite estrelada. A procura da imensidão, no aprisionamento de si mesmo.

Um quarto, em cujo interior, das almofadas aos pequenos retratos, das cadeiras à mesa de cabeceira, da janela entreaberta às peças de roupa, cada coisa manifesta uma certa expetativa, mesclada de memórias às quais nos apegamos, no intuito de revivermos o que nos agradou, ou de evitarmos o que nos amargurou. 

Autorretratos, numa multiplicidade na qual tentamos adivinhar as idiossincrasias de Vincent Van Gogh. Em cada um deles, e em cada uma das suas obras, uma história, um momento concreto. Ainda que contextualizar uma obra de arte possa implicar a investigação de histórias e momentos concretos que imaginamos sustentarem-na, uma tal contextualização nunca será completa e revelar-se-á de pouca utilidade, se na obra não descobrirmos motivos de reflexão sobre nós mesmos.    

Um campo, densamente ponteado de cores e de texturas, onde tudo comunga daquela mesma energia que anima o céu. Um homem que cobre o rosto com as mãos do desespero. Figuras, muitas figuras, numa grande variedade, umas que parecem fitar-nos de soslaio, outras laboriosamente ocupadas, outras indiferentes à nossa presença, outras com gestos de um sofrimento contido, todas povoam cenicamente o espaço. O retrato. Os ambientes naturais. As flores. Os objetos simples. Tudo pleno de significado.  

Vincent Van Gogh conduz-nos numa viagem pela complexidade de um mundo interior, repleto de encruzilhadas, um mundo que nos é comum, sem fronteiras. Vincent Van Gogh conta-nos as suas histórias, com frequência amargas, dialoga connosco, de uma forma amiga, simples, direta, sem qualquer intelectualidade artificial. Vincent Van Gogh não amedronta. Pelo contrário, cativa-nos pelo que nele há de intrigante, de indecifrável, de autêntico.   

As artes abrem portas à magia da viagem e do diálogo. 

 

SUBDEPARTAMENTO DE ARTES  MAIO DE 2019

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